giovedì 1 settembre 2016

Fernando Pessoa. Una scrittura profetica o occulta


Ci sono giorni in cui ogni persona che incontro e, ancor più, le persone abituali della mia convivenza forzata e quotidiana, assumono l’aspetto di simbolo e, isolate o in relazione fra loro, formano una scrittura profetica o occulta, che descrive in ombre la mia vita. L’ufficio diventa una pagina con parole umane; la strada è un libro; le parole scambiate con le persone che incontro abitualmente, o con le persone più insolite, sono frasi per le quali mi manca il dizionario ma che riesco in parte a capire. Parlano, si esprimono,  ma non parlano di se stesse e non esprimono neanche se stesse; come ho detto, sono parole, e non mostrano, fanno solo trasparire. Ma, nella mia visione crepuscolare, distinguo solo vagamente ciò che quelle vetrate improvvise, rivelate sulla superficie delle cose, fanno vedere dell'interno che velano e rivelano. Capisco senza conoscere, come un cieco a cui si parli dei colori.

FERNANDO PESSOA, Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (1913 – 1935, I ed. Livro do Desassossego por Bernardo Soares, recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha, prefácio e organização de Jacinto do Prado Coelho, Ática, Lisboa 1982, 2 voll.), edição e introdução de Richard Zenith, Assíro & Alvim, Lisboa 2014 (1.a ed. 1998), Autobiografia sem factos, [308], p. 266.


Há dias em que cada pessoa que encontro, e, ainda mais, as pessoas habituais do meu convívio forçado e quotidiano, assumem aspectos de símbolos, e, ou isolados ou ligando-se, formam uma escrita poética ou oculta, descritiva em sombras da minha vida. O escritório torna-se-me uma página com palavras de gente; a rua é um livro; as palavras trocadas com os usuais, os desabituais que encontro, são dizeres para que me falta o dicionário mas não de todo o entendimento. Falam, exprimem, porém não é de si que falam, nem a si que exprimem; são palavras, disse, e não mostram, deixam transparecer. Mas, na minha visão crepuscular, só vagamente distingo o que essas vidraças súbitas, reveladas na superfície das coisas, admitem do interior que velam e revelam. Entendo sem conhecimento, como um cego a quem falem de cores.

FERNANDO PESSOA, Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (1913 – 1935, I ed. Livro do Desassossego por Bernardo Soares, recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha, prefácio e organização de Jacinto do Prado Coelho, Ática, Lisboa 1982, 2 voll.), edição e introdução de Richard Zenith, Assíro & Alvim, Lisboa 2014 (1.a ed. 1998), Autobiografia sem factos, [308], p. 266. 






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