martedì 6 dicembre 2016

José Saramago. Nuovo fondamento nel prolungarsi dell’uomo nei propri figli


San Pietro di Roma non è uscito molto dalle casse in questi ultimi anni. Al contrario di quel che generalmente crede il volgo ignaro, i re sono tali e quali gli uomini comuni, crescono, maturano, gli si cambiano i gusti i gusti con l’età, quando per compiacenza pubblica non li si occultano di proposito, altri per necessità pubblica non li si occultano di proposito, altri per necessità politica a volte le si fingono. Oltre a ciò, è della saggezza delle nazioni e dell’esperienza dei singoli che la ripetizione porta alla sazietà. La basilica di San Pietro non ha ormai segreti per Giovanni V. Potrebbe montarla e smontarla a occhi chiusi, da solo o con aiuto, cominciando da nord o da sud, dal colonnato o dall’abside, pezzo per pezzo o a blocchi, ma il risultato finale è sempre lo stesso, una costruzione in legno, un lego, un meccano, un luogo di finzione dove non si reciteranno mai messe vere, sebbene Dio sia in ogni luogo.
Quel che conta, anche così, è il prolungarsi dell’uomo nei propri figli, e se è giusto che, per disdegno della vecchiaia o per prossimità a tale stato, non sempre apprezzi veder continuati atti propri che siano stati pietra di scandalo o pagliuzza troppo visibile, ugualmente capita che l’uomo si compiaccia quando convince i figli a ripetere alcuni suoi gesti, alcuni passi di vita, perfino parole, recuperando così in apparenza nuovo fondamento ciò che lui stesso è stato e ha fatto. I figli, è chiaro, fingono. In altre parole, speriamo più chiare, non sentendo più Giovanni V piacere che valga la fatica di montare la basilica di San Pietro, ha tuttavia trovato un modo indiretto di riaverlo, provando nel contempo il suo amore paterno e reale, facendosi venire ad aiutare dai figli, don José e donna Maria Barbara. 


JOSÉ SARAMAGO (1922 – 2010), Memoriale del convento (1982), traduzione di Rita Desti e Carmen M. Raudet, con una nota di Rita Desti, Feltrinelli, Milano 1984 (I ed.), pp. 242 – 243.


S. Pedro de Roma não tem saído muito das arcas nestes últimos anos. É que, ao contrário do que geralmente acredita o vulgo ignaro, os reis são tal e qual os homens comuns, crescem, amadurecem, variam-se-lhes os gostos com a idade, quando por comprazimento público se não ocultam de propósito, outros por necessidade política se vão às vezes fingindo. Além disso, é da sabedoria das nações e da experiência dos particulares que a repetição traz a saciedade. A basílica de S. Pedro já não tem segredos para D. João V. Poderia armá-la e desarmá-la de olhos fechados, sozinho ou com ajuda, começando pelo norte ou pelo sul, pela colunata ou pela abside, peça por peça ou em partes conjuntas, mas o resultado final é sempre o mesmo, uma construção de madeira, um legos, um meccano, um lugar de fingimento onde nunca serão rezadas missas verdadeiras, embora Deus esteja em todo o lado.
O que vale, ainda assim, é prolongar-se o homem nos filhos que tem, e se é certo que, por despeito de velho ou vizinhança desse estado, nem sempre estima ver continuados actos seus que tenham sido pedra de escândalo ou argueiro por de mais visível, igualmente sucede deleitar-se o homem quando persuade os filhos a repetirem alguns gestos seus, alguns passos de vida, palavras até, assim em aparência recuperando novo fundamento o que ele próprio foi e fez. Os filhos, claro está, fingem. Por outros dizeres, oxalá mais claros, não sentindo D. João V já gosto que valha o trabalho de armar a basílica de S. Pedro, ainda encontrou modo indirecto de o reaver, no mesmo movimento provando o seu amor paternal e real, ao chamar a virem auxiliá-lo seus filhos D. José e D. Maria Bárbara.


JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento (Editoral Caminho, Lisboa 1982), in Id., Obras, Lello & Irmão, Porto 1991, 3 volumes, volume III Romances, pp. 265 – 266.

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