giovedì 25 maggio 2017

Fernando Pessoa. Anime femminili che mi leggete, vi do questi consigli applicando il mio metodo


Consigli alle malmaritate
          
            Le malmaritate sono tutte le donne sposate
            e qualche nubile.

   Liberatevi soprattutto dal coltivare sentimenti umanitari.
L’umanitarismo è una volgarità.
   Scrivo a freddo, razionalmente, pensando al vostro benessere, povere malamaritate.
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Ogni arte, ogni liberazione risiede nel sottomettere lo spirito il meno possibile, lasciando al corpo la libertà di sottomettersi a piacimento.
   Non vale la pena essere immortale, perché sminuisce agli occhi degli altri la vostra personalità o la banalizza. Essere immortale dentro di sé, circondata dal massimo rispetto degli altri. Essere sposa e madre fisicamente verginale e dedicata, pur avendo commesso, tuttavia, débauches inspiegabili con ogni uomo del vicinato, da droghiere fino al < > – ecco ciò che è più allettante per chi vuol godere veramente ed espandere la propria individualità, senza abbassarsi al metodo delle servette che, essendo loro, è volgare, né cadere nell’onestà rigorosa della donna profondamente stupida, che è di certo figlia dell’interesse.
   Conformemente alla vostra superiorità, anime femminili che mi leggete, saprete comprendere ciò che scrivo. Ogni piacere viene dal cervello; ogni crimine, si è già detto, “si commette ne nostri sogni”. Mi ricordo di un crimine bello, reale. Non ve ne sono mai stati. Sono belli quelli di cui non ci ricordiamo. Borgia ha commesso crimini? Credetemi che non li ha commessi. Chi li ha commessi, bellissimi, color di porpora, fastosi, è stato il nostro sogno di Borgia, è stata l’idea di Borgia che c’è in noi. Sono sicuro che il Cesare Borgia che è esistito era un tipo banale e uno stupido; doveva per forza esserlo perché esistere è stupido e banale. 
   Vi do questi consigli in modo disinteressato, applicando il mio metodo a un caso che non mi interessa. Per quanto mi riguarda, i miei sogni sono di Impero e gloria; non sono affatto sensuali. Ma voglio esservi utile, piuttosto che niente, almeno per irritare me stesso, visto che detesto l’utile. Sono altruista a modo mio. 


FERNANDO PESSOA (1888 – 1935), Il libro dell’inquietudine (1913  1932), introduzione e  traduzione di Valeria Tocco, Mondadori, Milano 2016 (I edizione Oscar, I edizione Oscar classici moderni 2011), Prima fase, 89   115   [1915?], pp. 103 – 104.



CONSELHOS ÀS MAL-CASADAS

     (as mal-casadas são todas as mulheres casadas e algumas solteiras)
     Livrai-nos sobretudo de cultivar os sentimentos humanitários. O humanitarismo é uma grosseria. Escrevo a frio, raciocinadamente, pensando em vosso bem-estar, pobres mal-casadas.
     A arte toda, toda a libertação, está em submeter o espírito o menos possível, deixando ao corpo, que se submeta à vontade.
     Ser imoral não vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade e a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do máximo respeito alheio. Ser esposa e mãe corporeamente virginal e dedicada, e ter, porém contactos […] inexplicáveis com todos os homens da vizinhança, desde os merceeiros até (…) — eis o que maior sabor tem a quem realmente quer gozar e alargar a sua individualidade, sem descer ao método da criada de servir, que, por ser também delas é baixo, nem cair na honestidade rigorosa da mulher profundamente estúpida, que é decerto filha do interesse.
     Segundo a vossa superioridade, almas femininas que me ledes, sabereis compreender o que escrevo. Todo o prazer é do cérebro, todos os crimes que se dão é só em sonhos que se cometem. Lembro-me de um crime belo, real. Não o houve nunca. São belos os que nós só sonhamos. Bórgia cometeu belos crimes? Acreditai-me que não cometeu. Quem os cometeu belíssimos, profusos, frutuosos foi o nosso sonho de Bórgia, foi a ideia de Bórgia que há em nós. Tenho a certeza que o César Bórgia que existiu era um banal e um estúpido, tinha de o ser porque existir é sempre estúpido e banal.
     Dou-vos estes conselhos desinteressadamente aplicando o meu método a um caso que me não interessa. Pessoalmente os meus sonhos são de império e glória; não são sensuais de modo algum. Mas quero ser-vos útil, ainda que mais não seja só para me arreliar porque detesto o útil. Sou altruísta a meu modo.


FERNANDO PESSOA, Livro do Desassossego, Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha, Presença, Lisboa 1990, 2 voll, vol. I, s.d., p. 233.



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