giovedì 5 ottobre 2017

José Saramago. Un altro Dio


Io non sono uno stregone, mettetevi a dire queste cose e mi porta via il Santo Uffizio, e poi nessuno mi ha mai sentito dire che ho volato, Ma hai dichiarato che sei stato vicino al sole, e ancora un’altra cosa, che hai cominciato a essere uguale a Dio dopo che sei rimasto senza mano, se un’eresia così arriva alle orecchie del Santo uffizio, allora sì che non te la cavi proprio, Ci potremmo salvare tutti se diventassimo uguali a Dio, disse João Anes, Se diventassimo uguali a Dio potremmo giudicarlo per non averci dato subito questa uguaglianza, disse Manuel Milho, e Baltasar spiegò finalmente, con grande sollievo che non si parlasse di volare, Dio non ha la mano sinistra perché è alla sua destra che fa sedere i suoi eletti, e quando i condannati vanno all’inferno, alla sinistra di Dio non rimane nessuno, allora, se lì non ci rimane nessuno, perché Dio potrebbe volere la mano sinistra, se la mano sinistra non serve, vuol dire che non esiste, la mia non serve perché non esiste, è questa l’unica differenza, forse alla sinistra di Dio c’è un altro Dio, forse Dio è seduto a destra di un altro Dio, forse Dio è solo un eletto di un altro Dio, forse siamo tutti degli dei seduti, da dove mi vengono in testa queste cose, non lo so proprio, disse Manuel Milho, e Baltasar concluse, Allora io sono l’ultimo della fila, alla mia sinistra non si può sedere nessuno, con me finisce il mondo, Da dove vengono cose simili in testa a questi zoticoni, tutti analfabeti, eccetto João Anes, che aveva qualche rudimento, noi non lo sappiamo proprio. 


JOSÉ SARAMAGO (1922 – 2010, 1998 Premio Nobel per la letteratura), Memoriale del convento (1982), traduzione di Rita Desti e Carmen M. Radulet con una nota di Rita Desti, Feltrinelli, Milano 1998 (quarta edizione, prima edizione 1984), pp. 207 – 208. 



Eu não sou bruxo, ponham-se a dizer essas coisas, e leva-me o Santo Ofício, e também ninguém me ouviu dizer que voei, Mas declaraste que estiveste perto do sol, e ainda outra coisa, que começaste a ser igual a Deus depois de teres ficado sem a mão, se tal heresia chega aos ouvidos do Santo Ofício, então é que não te salvas mesmo, Salvávamo-nos todos se nos fizéssemos iguais a Deus, disse João Anes, Se nos fizéssemos iguais a Deus poderíamos julgá-lo por não ter logo recebido dele essa igualdade, disse Manuel Milho, e Baltasar explicou enfim, com grande alívio de já não se estar falando de voar, Deus não tem a mão esquerda porque é à sua direita que senta os seus eleitos, e uma vez que os condenados vão para o inferno, à esquerda de Deus não vem a ficar ninguém, ora, se não fica lá ninguém, para que quereria Deus a mão esquerda, se a mão esquerda não serve, quer dizer que não existe, a minha não serve porque não existe, é só a diferença, Talvez à esquerda de Deus esteja outro Deus, talvez Deus esteja sentado à direita doutro deus, talvez sejamos todos deuses sentados, donde é que essas coisas me vêm à cabeça, é que eu não sei, disse Manuel Milho, e Baltasar rematou, Então eu sou o último da fila, à minha esquerda é que não se pode contar ninguém, comigo acaba-se o mundo, Donde vêm tais coisas à cabeça destes rústicos, analfabetos todos, menos João Anes, que tem algumas letras, é que nós não sabemos. 


JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento, Editorial Caminho, Lisboa 1982 (I edição), p. 238.

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